Viajar parece algo simples. Escolher um destino, reservar um hotel, conhecer um restaurante, visitar um atrativo e voltar para casa carregando boas lembranças.
Para muitas famílias atípicas, porém, uma viagem começa muito antes da escolha do destino. Começa com perguntas.
O ambiente será muito barulhento? Haverá filas? Como será a iluminação? A equipe saberá compreender uma situação de sobrecarga sensorial? O restaurante estará preparado? E, talvez a pergunta mais difícil: se alguma coisa acontecer, aquela família será acolhida ou julgada?
Foi dentro dessa realidade que começou a história do Turismo Azul Inclusivo.
Uma experiência pessoal que se transformou em propósito

O projeto nasceu das experiências vividas por Gustavo Passinato com o filho Arthur e dos desafios compartilhados com Gisela, mãe do menino.
Aquilo que inicialmente pertencia ao cotidiano de uma família revelou uma questão muito maior: quantas outras famílias deixam de viajar, reduzem seus passeios ou evitam determinadas experiências simplesmente porque não sabem se encontrarão ambientes e pessoas preparados para recebê-las?
Gustavo transformou essa inquietação em projeto.
Como idealizador e mentor do Turismo Azul Inclusivo, passou a trabalhar em uma proposta que aproxima duas realidades que ainda precisam conversar muito mais no Brasil: turismo e autismo.
Não se trata de criar um turismo separado. Trata-se de preparar o turismo que já existe para que mais pessoas possam fazer parte dele.
A primeira mudança acontece nas pessoas
Quando se fala em acessibilidade, é comum pensar imediatamente em adaptações físicas. Elas são indispensáveis em inúmeras situações, mas, quando falamos de autismo, existem também barreiras que não são visíveis.
Um som que para alguns passa despercebido pode ser insuportável para outra pessoa. Uma mudança inesperada, um ambiente com muitos estímulos, uma dificuldade de comunicação ou uma longa espera podem transformar completamente uma experiência.
Por isso, um dos pilares do Turismo Azul Inclusivo está na capacitação e conscientização das pessoas que trabalham no setor.
Hotéis, restaurantes, atrativos, guias, receptivos e demais integrantes da cadeia turística podem aprender a reconhecer necessidades diferentes e desenvolver formas mais adequadas de acolhimento e comunicação.
E é justamente aí que o alcance da proposta começa a ultrapassar o próprio turismo.
O turista vai embora. O conhecimento fica.
Talvez essa seja uma das dimensões sociais mais importantes do projeto.
Um profissional capacitado não deixa aquilo que aprendeu na recepção do hotel quando termina seu expediente.
Ele leva conhecimento para a vida.
Leva para sua família, para os amigos, para sua comunidade e para os lugares onde trabalhará no futuro.
Quando um garçom passa a compreender determinados comportamentos de uma criança autista, quando um recepcionista aprende como agir diante de uma sobrecarga sensorial ou quando um guia entende que diferentes pessoas podem precisar de diferentes formas de comunicação, não estamos apenas melhorando um serviço turístico.
Estamos ajudando a construir uma sociedade mais informada e menos propensa ao julgamento.
É um efeito multiplicador difícil de medir, mas impossível de ignorar.
Quando uma pessoa é acolhida, uma família inteira viaja

Também existe outro aspecto que frequentemente passa despercebido.
O autismo não acompanha apenas a pessoa durante uma viagem. Ele faz parte da dinâmica daquela família.
Pais, mães, irmãos e cuidadores organizam horários, trajetos, alimentação, ambientes e atividades levando em consideração necessidades específicas. Muitas vezes, o receio de enfrentar incompreensão ou constrangimento pesa na decisão de sair de casa.
Portanto, quando um destino aprende a acolher uma pessoa autista, não está recebendo apenas um novo turista. Está acolhendo uma família inteira.
E isso muda profundamente o significado de inclusão.
Não é oferecer privilégio.
É permitir participação.
Um projeto que começa a construir uma rede
Para transformar uma iniciativa em mudança de cultura, entretanto, é preciso envolver diferentes setores da sociedade.
O Turismo Azul Inclusivo começa a construir essa rede por meio de parcerias institucionais, aproximando entidades, profissionais, empresas e organizações ligadas ao turismo e à inclusão.
A Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo – ABRAJET está entre as entidades que formalizaram parceria com o projeto.
A presença do jornalismo nessa construção também tem um significado importante. Não basta preparar destinos se a sociedade não conhece as iniciativas, não compreende sua importância e não debate inclusão.
Informação também é uma forma de acessibilidade.
O jornalismo de turismo pode contribuir dando visibilidade às boas práticas, provocando discussões e ajudando viajantes a fazer escolhas mais conscientes.
Inclusão também pode movimentar desenvolvimento
Há ainda uma dimensão econômica que não deve ser ignorada.
Pessoas autistas e suas famílias também são turistas. Hospedam-se, alimentam-se, utilizam transportes, contratam serviços, visitam atrações e movimentam a economia dos destinos.
Quando uma família deixa de viajar porque não encontra condições adequadas de acolhimento, todos perdem.
A inclusão, portanto, não deve ser encarada apenas como responsabilidade social. Ela também amplia possibilidades para o próprio turismo.
Destinos capazes de compreender diferentes necessidades tornam-se mais humanos, mais preparados e, consequentemente, mais competitivos.
Mas existe uma ordem que precisa ser preservada: primeiro vem o respeito às pessoas. O resultado econômico é consequência.
Mais do que um selo

O Turismo Azul Inclusivo prevê capacitação, adequação de experiências, certificação e ferramentas capazes de ajudar as famílias a identificar estabelecimentos preparados para recebê-las.
Esses instrumentos são importantes.
Mas nenhum selo colocado em uma porta será suficiente se, do outro lado dela, não houver pessoas verdadeiramente preparadas para acolher.
A força da proposta estará justamente na capacidade de transformar conhecimento em comportamento e compromisso em prática.
Inclusão não pode ser apenas uma palavra bonita em uma campanha de marketing.
Precisa ser percebida por quem chega.
De Arthur para muitas outras famílias
Grandes transformações nem sempre começam em grandes gabinetes ou instituições.
Às vezes começam dentro de casa.
A experiência de Gustavo com Arthur revelou dificuldades que pertencem também ao cotidiano de inúmeras outras famílias. Ao transformar essa vivência em uma proposta para o turismo, uma história particular começa a ganhar significado coletivo.
O Turismo Azul Inclusivo ainda tem um caminho a percorrer, parceiros a agregar, profissionais a capacitar e resultados a construir.
“Mas talvez sua contribuição mais importante já esteja presente na pergunta que provoca: para quem estamos preparando nossos destinos?”
Se a resposta for realmente “para todos”, será preciso fazer mais do que permitir que uma pessoa autista chegue a um lugar.
Será necessário fazer com que ela e sua família sintam que podem permanecer, participar, aproveitar e ser respeitadas.
Porque viajar é conhecer novos lugares.
Pertencer é sentir que também existe um lugar para você.
https://turismoazulinclusivo.com.br/
Miriam Petrone @miriam.petrone1