Durante muitos anos, falar de turismo significava falar de destinos. Praias, montanhas, hotéis, monumentos, gastronomia. Tudo isso continua importante. Mas já não basta.
O viajante que está chegando, e aquele que já está entre nós, quer mais do que conhecer um lugar. Quer saber como será recebido nele.
Tenho acompanhado o turismo há muitos anos, dentro e fora do Brasil, em feiras, congressos, destinos, hotéis, restaurantes e encontros com profissionais de diferentes segmentos. E talvez uma das mudanças mais interessantes que eu tenha presenciado seja justamente esta: deixamos, pouco a pouco, de pensar apenas “para onde as pessoas querem ir?” e começamos a perguntar “como elas querem viver essa viagem?”
Parece uma diferença pequena. Não é.
É aí que começa o novo turismo.
Não existe mais um único viajante
Durante muito tempo, boa parte dos produtos turísticos foi construída para um viajante quase padronizado.
Hoje sabemos que ele nunca existiu de verdade.
Viaja a família com crianças. Viaja a pessoa com deficiência. Viaja o autista. Viaja quem tem mobilidade reduzida. Viaja quem está acima dos 50, dos 60, dos 70 e quer continuar descobrindo o mundo. Viaja quem busca aventura e quem precisa de tranquilidade. Viaja quem procura gastronomia, natureza, cultura, religião, história ou simplesmente descanso.
Cada pessoa chega a um destino carregando necessidades, expectativas e histórias diferentes.
Por isso, inclusão e acessibilidade não podem mais ser tratadas como gentileza ou diferencial de marketing. Elas precisam fazer parte do planejamento do turismo.
Quando um hotel, restaurante, parque, agência ou destino se prepara para receber diferentes públicos, ele não está atendendo a uma minoria. Está ampliando sua capacidade de receber pessoas.
E receber bem sempre foi a essência da hospitalidade.
A longevidade também está mudando o mapa das viagens
Vivemos mais. E queremos viver melhor.
A população madura representa um público cada vez mais ativo, interessado em viajar, conhecer, experimentar e consumir turismo. Não quer ser tratada como alguém que ficou à margem da sociedade apenas porque os anos passaram.
Isso exige adaptações.
Acessibilidade, informação clara, segurança, conforto e atendimento adequado passam a integrar a experiência. Mas há algo ainda mais importante: respeito à autonomia.
O turismo da longevidade não deve ser pensado somente a partir das limitações que podem surgir com a idade, mas das possibilidades que se abrem quando as pessoas têm tempo, disposição e desejo de conhecer novos lugares.
Tecnologia sim. Mas com pessoas no centro

Talvez nenhuma transformação esteja acontecendo tão rapidamente quanto a tecnológica.
Reservamos hotéis pelo celular, compramos passagens em segundos, conhecemos um destino antes mesmo de chegar e agora temos a inteligência artificial entrando definitivamente no planejamento das viagens e na gestão das empresas.
Ela pode organizar informações, sugerir roteiros, identificar preferências, facilitar atendimento e tornar processos muito mais rápidos.
Sou favorável à tecnologia quando ela aproxima, facilita e democratiza.
Mas existe uma fronteira que não podemos perder de vista.
Turismo é feito por pessoas para pessoas.
Nenhum algoritmo conhece completamente a emoção de alguém que realiza a primeira grande viagem da vida. Nenhuma plataforma substitui integralmente o conhecimento de quem conhece um destino, suas particularidades e seus imprevistos.
A tecnologia será extraordinária se servir para melhorar a experiência humana — e não para retirar dela justamente aquilo que a torna especial.
O viajante não quer apenas fotografar. Quer sentir.
Também estamos assistindo à valorização das experiências.
É cada vez menos suficiente chegar a uma cidade, visitar seus principais atrativos, fazer algumas fotografias e partir.
O viajante quer provar a comida daquele lugar. Conversar com quem vive ali. Conhecer suas histórias. Descobrir pequenos produtores. Entrar em mercados, feiras e restaurantes. Entender tradições.
Isso fortalece algo que considero fundamental: a comunidade precisa participar do turismo que acontece em seu território.
Quando o dinheiro movimentado pelo visitante chega ao artesão, ao restaurante familiar, ao guia local, ao pequeno meio de hospedagem, ao produtor rural e ao comércio, o turismo deixa de ser apenas deslocamento e passa a ser instrumento de desenvolvimento.
Sustentabilidade deixou de ser discurso bonito
Também não podemos mais falar em futuro do turismo ignorando sustentabilidade.
Destinos lotados além de sua capacidade, patrimônio degradado e comunidades afastadas dos benefícios da atividade não representam desenvolvimento turístico.
Representam falta de planejamento.
Preservar natureza, patrimônio, cultura e identidade não significa impedir o turismo. Significa permitir que ele continue existindo.
O desafio dos próximos anos será crescer sem destruir aquilo que justamente motiva as pessoas a viajar.
O luxo também mudou
Há ainda uma transformação que me chama atenção.
Durante décadas, luxo no turismo esteve associado principalmente a grandes estruturas, sofisticação e serviços exclusivos.
Tudo isso continua tendo seu público. Mas surgiu outra ideia de luxo.
Tempo. Silêncio. Natureza. Autenticidade. Segurança. Atendimento individualizado.
Para algumas pessoas, luxo pode ser jantar diante de uma paisagem extraordinária. Para outras, dormir numa pequena pousada onde são chamadas pelo nome.
Experiência não se mede apenas pelo número de estrelas de um empreendimento.
Mede-se também pela memória que ele deixa.
Precisamos aprender a receber o novo viajante
É por isso que não acredito que o novo turismo seja uma tendência passageira.
Ele já chegou.
Está na inteligência artificial. Está no turismo inclusivo. Está na longevidade. Está na sustentabilidade. Está na gastronomia, na economia criativa, na valorização das comunidades e na busca por experiências verdadeiras.
E existe uma palavra que, para mim, consegue reunir grande parte dessa transformação: pertencimento.
O melhor destino não será necessariamente aquele que tiver a campanha publicitária mais bonita ou a maior quantidade de atrações.
Será também aquele capaz de fazer diferentes pessoas sentirem que podem estar ali.
Que aquele hotel pensou nelas.
Que aquele restaurante pode recebê-las.
Que aquele passeio é possível.
Que aquele destino também lhes pertence.
Depois de tantos anos falando, escrevendo e vivendo turismo, continuo acreditando profundamente na capacidade dessa atividade de aproximar pessoas e transformar lugares.
Mas precisamos acompanhar quem está viajando.
Porque o viajante mudou.
E nós, que fazemos turismo, precisamos mudar com ele.
O novo turismo não será definido apenas por onde vamos viajar, mas pela maneira como queremos ser recebidos quando chegarmos lá.
Miriam Petrone
Instagram: @miriam.petrone1